segunda-feira, maio 25, 2026

Teu tom de vermelho

De ti muitos irão falar; até tu mesmo maldirás a própria imagem no teatro das aparências. Caminha seguro até os bastidores. Lá encontrarás, na penumbra, um rosto horripilante, descarnado, expondo uma verdade sem máscaras em sua forma crua, nua, impossível de embelezar.

Encararás seus olhos arregalados, desprovidos de pele social. Eles te assombrarão.

Tu te assustas. Queres desviar o olhar, evadir-te, escapar. Mas não. Desta vez permaneces íntegro, firme diante do aterrador. Finalmente ele recebe tua atenção e apresenta-te a narrativa dissecada dos adornos.

A tela mental projeta o filme realista estreado pelo grande palhaço, que se apresenta pomposo em vestes extravagantes, exageradas, executando números em sua persona farsesca. Faz proezas, distorce impressões; o humor é usado para ocultar verdades. Sua fala ambígua e ruidosa manipula. Seus movimentos são puramente teatrais.

O grande palhaço antes te divertia; agora te enoja.

Sua língua foi destacada do corpo como um ser autônomo: espessa, gorda, inquieta, animal ferino e parasitário. Exposta aos olhos que já não desviam, é massageada, movendo-se como gelatina viscosa a expelir líquido venenoso, contaminante.

Diante da cena, teu estômago revira. Sentes repulsa, mas permaneces encarando o conteúdo a vazar inversões, toxinas, mentiras.

O filme chega ao fim.

A tela se apaga.

Tu mergulhas no escuro.

E nele, o silêncio.

As luzes então se acendem, uma a uma, iluminando o espaço agora vazio. Tu estás no centro. Ergues a cabeça e vês teu reflexo no espelho de um camarim.

Estás desolado.

Teus lábios estão pálidos.

Ao teu lado, uma mesa exibe mostras de batons carmim: inúmeros tons de vermelho. Antes, alguém pintava tua boca com o vermelho que desejasse; agora, porém, não aceitas mais qualquer tom sobre teus lábios.

Aceitas somente o teu tom de vermelho.

Não admites honras nem luxos, porque te tornaste incompatível.

Afasta-te silencioso do espetáculo.

Estranhamento.

Entrincheiras-te em ti mesmo e te preservas para ocasiões favoráveis, mantendo intactos os teus bens mais valiosos.

terça-feira, março 24, 2026

Embarcações-Texto

Aqui neste meu espaço íntimo,
lugar sem coordenadas geográficas,
cada texto é uma embarcação
atravessando as águas de um rio
que não precisa ser perfeito para partir.

É na travessia que encontram forma —
algo vivo,
em deslocamento e expansão.

Permito que cheguem
e que se vão.

domingo, março 01, 2026

Risco n’água

Se engana quem crê ler alguém por suas reações
nada dizem de outrem
são risco n’água
tatear no escuro

cenas e disfarces
manto que ferve
e encobre
o sulco profundo dos não ditos

equívocos
segredos e degredos
restos acumulados

cujo núcleo permanece intacto

rosto velado
de olhares vulgares
revela-se na ação
que o desloca de um estado a outro

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Adeus

Minha cabeça, repleta do que não me cabe,
deita, cansada,
sobre os ombros do desconhecido.

Deixa-se à deriva
dos olhos famintos de horizonte.

O brilho repetido dos vaga-lumes,
a acender e apagar,
outrora afagava,
agora me fada.

Encerro a vista
na escuridão da noite
que me abraça.

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Sentimento Familiar

Familiaridade
dos limiares e marés que vão e vêm
à meia-luz de pensamentos que pairam
e se assentam devagar
sobre a superfície brilhante do chão molhado.

Deslizam no próprio tempo
até se esvaírem,
bolhas vítreas que se rompem no ar.

Meu peito expande e comprime,
pulso interno
do que chega e parte.

Atmosfera rarefeita me envolve
e me move
até que meu estado
decida onde pousar.

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Híbrida

Cansei dos contornos traçados por mãos alheias.
Da natureza que me deram sem atravessar-me.

O íntimo não se recebe por fora.

Quase nada do que sou se nomeia.
Nem eu ouso encerrar-me.

Do pouco que naveguei de minhas águas,
avistei a extensão do horizonte.

Acreditei, mas não era eu.

Sou híbrida.
Múltipla.
Não pertenço a um só porto.

Zarpo.
Atraco.
Fico.
Parto.

Nem acima, nem abaixo.
Comparações não me definem.

Ao ir ou permanecer, levo o que me é próprio.

domingo, fevereiro 22, 2026

Aroma translúcido

A eternidade
num momento.

O invisível
se aproxima
sem se mostrar.

Segredos
translúcidos.

O que não destoa,
entoa
um mantra.

Perfume que se insinua.
Pele fresca em água fria.

Aroma que vai e vem.

Sussurro agradável
sem saber dizer o quê.

Não salta:
pousa na pele,
discreto.