domingo, dezembro 27, 2009

Pingo

Foi na véspera, meu companheiro
Vi que estava cansado, seus olhos parados já não brilhavam mais
Aconselharam-me escolher, já não havia mais jeito
Meu companheiro já não poderia voltar para casa
Uma dor silenciosa pairava, demorada como os suspiros que dava
Meu amor era maior que o egoísmo que o impedia de partir
Amigo, as flores que plantei, de você se alimentarão e por você florescerão
Para que celebrem a vida que foi sua
E então, deixei que se fosse, para nunca mais voltar

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Uma corda no mar

A corda solta paira,
Embebida, morada de musgos,
Enegrecida, apodrecida.

No cais do porto,
Vaga uma corda solta,
Sucuri engolfada.

Levemente boia,
Traça um caminho na água,
Sozinha corta o horizonte
E se perde no mar.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Quietude

Eu e o tempo
Caso de amor que se encerra a cada esquina
Chama acessa que se apaga a cada sopro em dias de ano
Janela aberta que se fecha na tempestade
Um destino se traça a cada vereda
Entre sorrisos sentimentais
Sobre teu peito minha cabeça se apazigua
Esse teu coração a tocar
Notas palpitantes
Ritmo a saltar na escuridão (salutar)
Preso à mortalha do peito
Cela a se exaltar
Pondo termo à mazelas minhas
No seu coração se aquieta o meu
Vem num beijo me pacificar
Atmosfera fina em estação calmosa, no céu puro a forrar a noite.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Assombro

Na madruga tilintam os ossos, sucatas velhas da escuridão, ruína antiga
O aparelho de som tem olhos que me reprovam, me espreitam no escuro da noite
Os ruídos que se arrastam pelos encanamentos presos no interior das paredes são monstros fantasmas
Os insetos que se agacham pelos rodapés, mutantes gigantes, zunem, me zombam
Este lugar é um veneno, traiçoeiro, sono mortal
Milhares de olhos, espalhados pelas paredes, pelas portas e frestas, janelas e móveis, espelhos, vidraças, por trás das cortinas me espreitam, me vigiam, me devoram
E eu aos poucos vou desaparecendo, parte por parte na escuridão, sumindo... sumindo....
Dentro desse encargo oco não me sobra nada, além do assombro, do rombo, um escombro.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Noite

Sua doçura é quase um beijo
Sua alma vacila
Extrema, indolente
Pouse longe estes seus olhos
Não ousaria jamais desejar olhos como os seus
Essa sua presença incomoda desassossego entre os lençóis
Se alterna entre suave e pungente, um sopro, um pregoar
Cravando profundas garras negras, silentes, laços de dor
Movimento desordenado, paixão, calor latente dos corpos
De repente... um intervalo livre de febre
Traz um mergulho ardente, queimando
Uma vertigem, tentação súbita
Então aos poucos recua, arrefece
Vem a velar o meu sono, deita-se por sobre meu corpo
Envolve minha garganta, impedindo-me o ar de chegar aos pulmões
Seus olhos imensas estrelas fatais pesam sobre os meus, pequenos mortais
Ameaça levar simula tomar, me deixa o sabor de que a nada pretende possuir
E então desliza devagar acima do teto que me impede o olhar
Da totalidade de sua beleza, opulência dos corpos celestes
Encerrada numa cúpula negra salpicada de pontos luzentes
Guarda um silêncio impossível
Universo a morrer no horizonte

sábado, novembro 28, 2009

Encanto

Aos onze sentei-me em um banco de igreja
Chorei as lágrimas do senhor que orava ao meu lado
Senti um pesar por não tê-lo conhecido
Uma dor selvagem me rasgava o coração
Escondi o rosto, evitei pessoas
Corri até lá fora, o céu estava rubro
As noites passadas estancaram no tempo
Emergia mais um espetáculo de estrelas
Brilhava o sol do outro lado do mundo
Em mim o lado negro da lua
Cegueira
Sítio sombrio
E de pronto meu encanto surgiu, pelo breu que meu pranto calava

quinta-feira, novembro 26, 2009

O corpo

Eu caminhava na neve
Os passos se afundavam
No vazio daquele quadro pálido
Andava em círculos, cavando cada vez mais fundo
Girava cada vez mais perto, me aprofundando nesta cavidade
Uma lacuna, um buraco, olho negro da terra
Um flerte da morte, apaixonada e faminta
Ossos trincados, porosos enganos
De posse bastarda
Morosa consumação
Corpo findo alma infinita
Um dualismo judaico-cristão
Povoou-me as fantasias
Pretensões desvairadas
De um ego vaidoso
Convicto de sua nobreza
De imaculado saber
Opressor da matéria
A julgar
Condenar
Sentença brutal:
O corpo
Relegado a domesticação
Mas hão de lhe fazer justiça, nos confins desta terra
Das paixões que lhe reprimem, das angústias que lhe imputam.

sexta-feira, novembro 20, 2009

Já é tarde

Deixe tudo como está
Os papéis sobre a mesa
Os livros no chão
Meu coração é um punho fechado, dilacerado
Minha alma é um mundo perdido, soterrado
Preciso dormir. Amanhã é uma prova
Uma prova do tempo
Hoje não parei para olhar o céu. Nem ontem
O sol não me toca, nem queima. Não dentro deste gabinete
Se não me apressar, perderei a manhã e parte da tarde
Já você, quando não estou ao seu lado, perco cada segundo de um olhar a um sorriso.
Perdão. Já é tarde
Perdoe-me, mas é sempre tarde demais.

domingo, novembro 08, 2009

Sossego

No fim da tarde
A cigarra começa a cantar
As copas das árvores começam a dançar
Eu me sento sobre o toco de tronco rachado
Olho distante esse mundão que parece dormir
E um pouco de paz a que tanto aspiramos me chega ao coração
Mal posso fechar os olhos com medo de abri-los novamente e meu mundo se desvanecer.

terça-feira, novembro 03, 2009

Paisagem

A neblina cobre as montanhas que cercam a cidade,
revelando, aos poucos, seus contornos irregulares.
Na orla, o mar se ergue como um colosso, deitando-se sobre as areias profanas do vasto formigueiro de saúvas.
Às suas costas, abre-se um recôncavo impedido pelo aterro: águas insalubres, tingidas de negro petróleo, submetidas à vontade humana.
Superfície tremulante, dotada de um sossego letal.

Persiste uma paisagem fingida, como o frescor das flores mortas de um ramalhete.
Simulacro da vida que, aos poucos, se esvai.
Maravilha desgraçada e poluída. Destroços de um sonho vencido.
Paisagem: desenho borrado, passatempo para aqueles que se põem a admirar a aterradora ficção.


terça-feira, outubro 27, 2009

Agora

A noite chegou
E com ela veio o silêncio dos dias de domingo
Algumas pessoas falam na calçada
O relógio é uma arma apontada para minha cabeça
Desvio o olhar, não quero pensar no amanhã
Quero o agora, a quietude do instante, a leveza do presente

domingo, outubro 25, 2009

Pressão atmosférica

Meu olhar se alinha entre as grades de ferro para ver o tempo chegar.
A beleza que apreendem é a beleza do mundo que se estende além dos prédios da cidade.
As nuvens viajam pesadas, pairando acima das montanhas rochosas, vêm confirmar a previsão meteorológica.
Estou ainda na fronteira entre o previsto e a evidência, o fato segue independente das fronteiras do saber.
Olho a paisagem tentando não traduzi-la em verdade, deixo prevalecer as sensações que os olhos não concebem, e então, sinto o dia virar noite.
A cidade perde seus contornos projetados em linhas retas, curvas sólidas, abrindo espaço à imensidão do mundo e o frenesi concreto revela sua insignificância.
Carne humana, ruído mecânico, brisa mista de gazes tóxicos, confinados em uma panela de pressão.
No silêncio irrompe o grito da multidão, matéria bruta convertida em mercadoria. Impassíveis, utilitários, aparentemente saborosos, servidos prontos para o consumo.
Aqui tudo acontece sob a lei da pressão atmosférica, lá fora o silêncio e a escuridão, o universo imensidão, engolem a exiguidade de um planeta azul.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Sono

Era noite e nossos olhos quase fechavam
Chovia e nossas bocas calavam
O mundo acontecia lá fora
Pessoas sorriam, corriam, se escondiam
E em nós morava o silêncio infinito
O sono pendia sobre nossas cabeças
A respiração varava o peito
Ungia-nos o calor da concórdia
A quietação dos ânimos
Duas almas pachorras
Sossego nos quartéis e conventos
Rogamos para que fosse justo
E então nos entregamos em paz

segunda-feira, outubro 12, 2009

Centelha

Brilho celeste
Fogo azul do céu a cair
Desliza silente o espaço fluído
Até tocar num estrondo o solo
Se expande num clarão, feito flash a cortar o chão
E o estouro se mescla a tremores terrestres
Condução do céu a terra
Nuvens alta voltagem
A vibrar, a chorar, a regar
A vida vem trazer
Do infinito às fronteiras do meu breve olhar
Então a imensidão dançou diante de minha insignificância
E tocou a canção de um tolo coração, miserável a chorar

segunda-feira, outubro 05, 2009

Sonhei

Ontem sonhei com os milhares de dramas que permeiam a vida.
Em meio a inutilidades vis, preocupações meramente aparentes que se repetiam num circuito infinito.
Num mundo em que tudo pesa e o fardo cresce num feixe de doze estribas.
Baixei guarda, deixei-me o corpo conduzir, rumo às vontades voláteis.
A sede e fome de cada dia, quando o que queremos é saciar o infinito, conquistas em débito eterno.
Quando me volto para olhar tenho tudo acabado, num rumo outrora traçado vejo a estrada se adensar, vejo o tempo chamar, e o que vi foi a todos subir a bordo de minha lataria pesada, negra, reluzente a luz de um dia revolto.
Vagando num pensamento fantástico, maravilhas vazias num coco seco, nos aventurávamos num céu em chamas e o coração na mão, o perigo nos trazia de volta à realidade forjada.
Até que cada qual decidiu abortar sem norte, em profusão, a rosa-dos-ventos se rasgou e o sonho se achegou ao despertar.
Já era hora... Já era hora de acordar.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Momento

A imagem presa num pedaço de papel
Como mágica que escapa do tempo
Saudade cristalizada no coração
Um jeito cabisbaixo meio que sem esperança
No momento não havia percebido aquele seu olhar
No presente me dei por vencida, afastei-me em receio
De que sua tristeza fosse maior do que eu
Para mim era aquele mirado triste de quem olha para baixo
Buscando um sentido nas coisas pequenas, naquelas que mal enxergamos
Como se estivessem aos nossos pés, fáceis demais para perceber
Breves demais para se alcançar
De cabeça e ombros curvados à procura de si mesmo
Como lhe pesava o mundo, olhos calados
Silêncios d’alma, relógio a pender
Sorvedouros d’ouro
A tudo pareciam suportar
Pudera eu ter segurado sua mão
Contemplei sua alma a errar distante
Meu coração apertado, cismado com o peso do seu
Mais parecia magia aquele seu olhar, mar a inundar
Aquele ainda hoje a persistir num pedaço de papel
Meu corpo tensão, pura apreensão
O momento passou,
O momento ficou,
Eternamente,
O momento era você
E eu não saberia dizer,
Não de um momento como aquele em que o presente era você

quinta-feira, setembro 17, 2009

Corpo humano

Não quero beber
Quero sede, seca
Não quero conforto
Quero desalento, abandono
Venta frio, não me cubro
Não quero me aquecer
Arrepio, me encolho
Imploro...
Só o que faço é pedir e desejar
Digo não...
Vem a resposta
Involuntária
Grita, ordena
Me nego
Provo que não me controlo,
não me pertenço
Agora, digo...
Digo que sou eu
quem está no comando
desse organismo
Calafrio, febre e torpor...
Corpo e mente, divisão celular
Corpo, anticorpos
Perdendo e repondo
Vida a pulsar
Vida a se esgotar
Envolva-me
Escolho nada ter para tudo ser

domingo, setembro 13, 2009

Pedido 4662

Meus dedos são como estacas rachadas
Prontos para perfurar, cavar esse solo erodido
Nesta sala fechada, abafada em meio a lasers
Tambores eletrônicos, aborígenes expatriados
O perigo ronda, devora destemido
Não há o que temer, não há o que temer...
Ecoa no ar, invariavelmente
Num mar onde somente os corpos falam
Irrompe maré alta que tenciona involuntária
Cataclismo ilícito se move de dentro para fora
Rostos inexpressivos
Pálidos, cambiantes
São só borrões de tinta
Seus corpos fumaça
Ondulando, ondulando...
São todos um só terreno
Mergulho, toco no fundo
Bebo dessa superfície
Aspirando que seja perene
Peço, e peço, para que não acabe nunca
Sofro a influência dos astros
E tudo passa, cedo ou tarde

quarta-feira, setembro 09, 2009

Morte

Quem, a ti, não temer,
teus olhos miméticos,
tua foice implacável,
teu ponteiro certeiro.

De teu beijo levará o sabor,
em teu enlace mergulhará devagar,
destinado a nos escoltar.

Lira distante,
chamado lacônico,
teu lamento, um encanto,
bramido suave a clamar.

Meu nome em tua boca,
teus versos a decantar,
anjo a cantar
para meu espírito cativar
e minha alma levar
para todo lugar.

Num abraço a consagrar,
derradeira essência a chorar,
verdadeira existência a firmar.

Por ti, não haverei de chamar.
A ti, não haverei de negar.
Por ti, não haverei de esperar.
A ti, haverei de aceitar,
silenciosamente em meu coração.


domingo, setembro 06, 2009

Dia de chuva

Sensação eterna de incompletude
Lembrança remota, difícil de se alcançar
Suspensa no meu coração
De longe, familiaridade, raridade
No céu branco, somente pássaros em revoada
E a chuva, cortejo brilhante, ruído cadente
O cheiro da terra, quando queda no solo
Inconfundível, indescritível
Da memória, o aconchego
Das janelas, cursos d’água
Correndo, escorrendo,
Alimentando a terra
Alimentando a farra dos pardais no telhado
Nutrindo a nostalgia, crescente corredeira
Fim de tarde a suspirar
Dia de chuva, dia de chuva
Os olhos chovem alimento d’alma
Pedindo aquilo que o tempo tira

quinta-feira, setembro 03, 2009

Roda do Tempo

Cedo, ao alvorecer da vida, hei garotos, moleques, grilos serelepes no jardim a suspirar, para que a roda do tempo se estanque, gire lenta, quase a parar num sonho ensolarado, chuvoso, num bailareco infinito.
Crescidos, esguios, no alarde das valentias, valsejo de amor, vapores suspensos elevados à décima potência, respirações anelantes, ações alarmantes, disritmia pulsante, a roda acelera às voltas de um tempo sem volta, engrena sem medo até desabar em perene ilusão.
Crescidos descrentes, maduros amargos, transeuntes perdidos na roda furiosa, estrelas cadentes que descambam em desajeito, morro abaixo, morro abaixo, morrendo, morrendo...

domingo, agosto 30, 2009

Sorvendo-me

Muito bebi da racionalidade,
Mas não adianta — de todo, não sou racional.
Argumentos bem elaborados, pautados em exímias teorias,
Por certo, não me convencem; resvalam no orgulho cético.
Por pouco, ocupam espaço no vácuo onde sufocam e gritam em desespero.

Eu, por inteira, não sou racional.
Meus atos e convicções são, em grande parte, passionais, sazonais, impulsos irracionais.
Elevações, depressões, erosões em terreno arenoso, pedregoso.

Não sou equação, sou inequação,
Desigualdade insatisfeita,
Valores de parâmetros indeterminados,
Incógnitas irresolutas,
Inconcluso "objeto".

Expressão fiel da natureza,
A quem não se pode convencer,
A quem não se atribuem verdades.

Sorvendo-me,
Transbordando,
Tragada num único gole,
Expelida em uma só onda.

Coração a bombear,
Oração sempiterna,
Que não teve princípio nem há de ter fim.

sábado, agosto 22, 2009

Tear

Num tear estúpido das ideias
Imaginação que se desvanece
Feito fumaça, chuva de verão
Arrabalde de um povoado insano
Livres dos dispositivos frívolos da razão
Forjando utopias
Prometíamos, prometíamos...
Tudo no futuro
E agora que o futuro chegou?
Restou-nos o passado?
Planejávamos paixões
Desejos fluidos jorravam feito cataratas violentas, inclementes.
Planávamos leve entre as montanhas
Deslizávamos num caminho desenhado entre os espinhos
Num roseiral perfumado e dolorido, herdado dos antepassados
Queridos já passados
Antigas embarcações
Em coro a decantar
Agora, que sou eu
Símplice individual
Que pergunta ao espelho
E?
Ascende um suspiro do passado
Para lembrar-me de quem fui
Agora que já nem mais sabia dizer
Quem para o espelho mirava


quinta-feira, agosto 06, 2009

O Hidrante

O hidrante quebra na esquina a jorrar emoção alheia
Uma porção de fio d’água se atira do parafuso
Parece frio desviar-se a esquerda privando-se do “objeto”
Ninguém irá agachar-se a atarraxar o parafuso
Analisar a dureza já gasta o cansaço abatido
Plantado na calçada arrebentada
Um estorvo para os apressados
Sapatos inquietos de lá para cá
De cá para lá toc toc toc
Formigas maçarocas
Os olhos bolas de gude de lá para cá de cá para lá feito sapatos apressados
Ora, vamos lá
Para que serve um hidrante?
Como definir um hidrante?
Que função utilidade teria o hidrante na esquina desta vida?
São tantos hidrantes plantados na calçada
Os hidrantes não estão a vista dos pensamentos
São dois daqui à esquina seguinte, três de lá à rua seguinte
São tantos que nem vejo quantos
Hidrantes no nível da rua
Emergência ambulante
Como que brotando das calçadas
Sangram a se esgotar pelo o ralo
Deitado em esquecimento
Vou-me embora
Olho para trás
Lá está ele
Fica o hidrante na rua
Selado na eternidade
Vem comigo em meu caminho
Ainda me lembro

Se é que se pode esquecer...

terça-feira, julho 28, 2009

Polos à parte

Assim que nossos caminhos não mais se cruzarem,
Num entendimento elementar,
Destoando em cruzamentos,
Imagens reversas,
Retóricas dissonantes,
Haveremos de nos dirigir
Aos polos opostos:
Ártico,
Antártico,
Ao extremo Norte-Sul,
Divergindo entre estações,
Alternando entre dia e noite,
Do inverno austral
Ao Sol da meia-noite,
Da florada das ideias
Ao declínio das doutrinas.

Unidos por oposição,
Em partes compostas,
Do abrir ao fechar do sorriso,
Como cortinas de teatro
Que ocultam o vazio pano de fundo.

Assim, deste ou daquele modo,
Absolutos e transitórios,
Num passar,
Num ficar,
Num olá,
Num adeus,
Sem que possamos medir a distância
Entre nossos pensares e pesares.

Tudo se faz linhas,
Linhas imaginárias,
Desenhadas para apartar,
Que a tudo tendem a dividir
Em polos à parte,
Onde haveremos, cada qual em seu eixo,
De erguer observatórios em defesa de si mesmo,
De erguer fortalezas em nome do isolamento.

Haveremos de combater nada além de nós mesmos.
Haveremos de abrigar a verdade de nossas ilusões.
Haveremos de viver a quimera das oposições.

Haveremos, então, de nos armar, cortar laços,
Na iminência das tão sonhadas alianças,
A anos-luz de nossas essências.


terça-feira, julho 21, 2009

Sonhos

Daqueles que se vão
Sonhos perduram no tempo
Dentro daqueles que deles compartilhou
Os sonhos que não afloraram
Viajam para todo lugar
Em arranjos musicais
Tempestades guturais
Fenômenos naturais
Na eterna imensidão
No infinito deste céu
Num sopro vento sul
Em reluzente amor astral
Indo e vindo
Fluído como as ondas
Do início ao fim sem fim

quarta-feira, julho 15, 2009

Olhos

Os olhos tragam imagens desolados
Percorrem, assassinos, despedaçando, fragmentando
Malditos sejam estes olhos que parecem dizer
Muito além do que digo
Espelhos manchados
Par cruel a engolir o espaço
Esféricos imundos refletem o nada
Assustam com o nada
O nada...
O nada que deles propaga
Acesos em chamas, furiosos sedentos
Inflamados, febris
Caçadores impunes
Capturam destroços
Partes do nada
Malditos sejam...

terça-feira, julho 07, 2009

Mundo Sombrio

Ao som indefinido do mundo componho a harmonia perfeita do que se parecem apenas ideias e por trás desta cortina de fogo vejo escorrer por entre os dedos apenas restos do que um dia tanto reluziu.
Caminhando em passos desconexos, onde impera o reino fragmentado das várias ideias, projeto no chão uma imagem disforme, réplica do que sou.
Minha sombra multifacetal segue meus passos, ouve meus pensamentos dia e noite, me acalenta em seus gélidos braços, no leito onde a esperança me desespera.
Na atmosfera onde tudo se desfaz, não há espaço para a concretude, nem para o equilíbrio, exceto pelo tempo, roda que gira sem cessar, metálica, pesada e indigesta a que estamos condenados.
Mundo sombrio, em sua escuridão me detive, seja por ser inevitável, seja para de longe observar os pequenos feixes de luz que fazem das sombras ainda maiores e da alma uma dolosa nostalgia e esta sem precedentes segue vazia a vagar pelo espaço, terreno inóspito, onde o porvir parece não existir.

terça-feira, junho 30, 2009

Dor

Gosto de ferir-me os dedos
Rasgo lhes a pele
Sugo-lhes o sangue
Um gosto metálico, desagradável
Escorre ardido, dolorido
Mordo a chaga, estanco a fenda
Humor instável
Temperamento sanguíneo
Cravo as unhas na ferida
Provoco incessante
A dor cresce aos poucos
Assim, um pouco mais a cada investida
Sensação mais ou menos aguda
Picadas de vespa
Deixo adormecer a dor para acordá-la novamente
O caminho de volta é um caminho sem volta
A penetrar na pele uma dor que nasce na alma

sexta-feira, junho 26, 2009

Ioiô

Correndo de cá para lá
Matando o corpo em agonia
Bate cansaço, ó meu deus
Passou-se a semana a voar
Bate de cá para lá
Bate no peito agonia
Quando se vê já se foi
Quando se vê já foi dia
Ah que já fora-se o tempo
Ioiô vai e vem
Já se foi

sexta-feira, junho 19, 2009

Das verdades

Verdades vêm tarde
Verdades faladas machucam
Porque ferem os ouvidos, o ego
Porque nos lembram de que somos humanos
De tudo aquilo que já sabemos no fundo ser mesmo verdade
Do caráter que intimamente conhecemos
Das limitações, que nem sempre queremos
Perdidas em meio a exigências
Autossuperações
Mas quando nos falam
Em alto e bom som
Dos defeitos que sempre enumeram, qualidades que deveriam ser muitas
Ah então nos lembramos, de que somos mesmo humanos falíveis
Nos lembramos de que devemos ser muito além
Muito além do que somos
As verdades que dizem machucam
Mas não mais do que aquelas que calam
Verdades caladas não lembram jamais, de que somos humanos
Estão acima e além do que somos
E então as verdades machucam
Faladas e caladas
Porque não conhecem jamais, daquilo que é humano

sexta-feira, junho 12, 2009

Teus passos

Teus passos no corredor deixam vestígios de som quase amargo de escassa saliva na boca fechada
Minha casa um labirinto de sons escuros sobressaltados sons sumos de limão
E quando tomam o aspecto entre doce e azedo aperto os olhos para abri-los e ver tudo ao redor ainda mais nitidamente num gozo momentâneo e intenso para se dispersar aos poucos feito perfume pulverizado no ar
As gotículas caem em câmera lenta do alto até o chão colorindo corredor labirinto em fragrâncias prazer delas breve alegria
Giram avulsas a dançar cores e flores
Frenesi brasa ardente
Tempero açafrão
Sopros cordas vozes
Cântico à vida
Ponte entre ausência presença
Ode aos passos que se deram
Calores exaltados
Canto à tua presença
Deles pegadas restos que ficaram
Calores exalados
Canto à tua ausência
Teu ir e vir
Fluído fluxo
Que ora se elevam
Ora se cavam na superfície agitada do corredor labirinto de teus passos
Instrumentos sonoros ecoam pelo ar postos em vibração
A agitar sons destemperes feito guizos a volta do pescoço
Dança veloz de chocalhos cascavéis
Enfim explosão de teus passos descompassos
Manando rio tosse convulsa em desmedido corredor labirinto de teus pés
Passo a passo embaralhado deleite
Deixe que se vá
Os passos se acalmam após turbilhão

domingo, junho 07, 2009

Saindo...

Quando vou-me para estes lugares,
Repletos de luz
De música
E gente
A gargalhar
Articular
Pavoneando-se
Em artifícios
Customizados em tópicos banais
Ali fico eternamente a mentir estar ouvindo
Prefiro nada dizer
Recosto-me ao assento mais macio
Os olhos fixos num ponto fixo
A alma solta a vagar no espaço
Dali a mil anos luz
A fugir dessa chatice

quarta-feira, junho 03, 2009

Noites de inverno

Garoa lá fora a perder de vista vapores naturais
Como a fumaça de um navio distante a se afastar
Pairam de mansinho por sob a noite fria
Num beijo de boa noite aqueço o coração
Recua devagar a sombra na soleira
De mim resta o silêncio
Flauteando o sono entre as cobertas
No silêncio irrompe o latido dos cães
Nesta noite um afago nostálgico
Fico a imaginar o mundo encantado
Desenhando sombras na parede
Dos vestígios de luz do hall
Despistando as investidas de Hipnos
Elevando o instante ao infinito
Vai passando devagarinho
Coral que aos poucos perde a entonação
A alma chama
A voz cala
Longínquas são as pátrias
Pátrias do meu coração
E das terras apreensão
Delas pouco sabe a razão
Num sopro a me levar
À margem do rio que ousaste atravessar
Embarcação errante névoa traiçoeira
Não há rosto nos homens doutra margem
Numa noite que me parece infinita
Hei de embarcar a remar sem direção
E me juntar aos homens sem rosto noutro lado da margem

domingo, maio 31, 2009

Aperto no peito

Aquele aperto que brota no peito
Embotando a vista
Cheirando a chuva
Saudade anunciada
A beijar-me o rosto
Passarinho escarlate
Que há sentimento
De sussurrar ao pé da orelha
Num decoro musical
Versos verões d’ouro
Perdão dos compridos meses
Que nos impedem mergulhar
Viajar onda canção
Um tempo às nossas costas
Traz o desabrochar das rosas
Chaga aberta
A deitar espinhos
Reticências fragmentos
Em variáveis infiéis
Dor: nem forte nem aguda
Vai passando devagarinho
Do vinho ao vinagre
Embebendo a alma
Viço danado
Estufa um suspiro
Trazido do ventre
À jaula do peito
Então me resta, do que nada adianta
Bato com as mãos espalmadas no muro
Vou-me embora a assoviar

quarta-feira, maio 27, 2009

Dos tempos de Poděbradova

Do quarto da pensão onde eu morava na Rua Poděbradova, vinha a noite me chamar, a caminhar, a degustar a solidão daqueles dias.
Da janela avisto poucas luzes tremulantes, distantes feito estrelas, provocando minha imaginação, a quem estariam a iluminar?
Aquele céu frio me acalmava os pensamentos, que saiam soltos, perdidos na brisa gelada.
Sem que pudesse aprisioná-los quietos neste corpo escorado à janela, havia um desejo de me juntar a noite, me esgueirar por entre as sombras dos arvoredos, projetar-me maior no asfalto destas ruas.
Alma marginal, soturna a vagar em silêncio aterrador. Corpo quente, afagado entre casacos, sobretudos, cachecóis, das botas sobem ruídos pausados como alguém que bate à porta.
Os sons da noite se ajuntam em sobressaltos, mistérios infinitos cúmplices entre si.
Experimentava o sabor da cidade, sua essência fantasma em que uivava um passado vivo.
Minh ’alma rumo a si mesma, queria estar só, ouvir o calar do mundo, o ronronar dos sonos, o sopro gelado, recolher-se a si mesma, expandir-se em cidade.
Este céu que a todos cobre, àqueles do outro lado do oceano a quem conheço, a mim que mal conheço.
A sensação de desamparo agrada-me os sentidos, a brisa em redemoinhos beija-me os olhos e os fecho para sentir com mais intensidade.
Aspiro profundamente como se quisesse engolir o momento, detê-lo aqui dentro, mas o deixo escapar e confundir-se com a alma do mundo.
A madrugada traz magia aos concretos da cidade, nostalgia à natureza. Uma beleza melancólica de prazer demorado, fugidio.
Os pés querem avançar cada vez mais longe, sem que possam encontrar mais nada, além da madrugada dos tempos de Poděbradova.

domingo, maio 24, 2009

Dalila

Porque peço, acalmar essa ânsia, de humor semiárido. Estes pés inquietos réquiens de Dalila.
Pobre coitada, andar sob o sol lhe parece uma lástima, tua pele suada a lagrimejar pelas curvas, ardendo-lhe os traços.
Estrada vazia, marginais margaridas impedidas no asfalto, fantasmas do vento.
Numa falha contida, vaidade ou orgulho, se apressa adiante, de que adianta correr?
Sentimento de perda, prisioneiro do tempo, retesado no bojo, no seio de “Lila”.
Seu olhar judiado, indaga o espaço em profundos naufrágios. Tudo são lugares cravados, raízes do vácuo, memórias fulgentes.
Cegueira brilhante, os olhos se ajuntam e o clima tórrido cria ondulações no ar, silfos dançantes.
Dalila se apressa a equilibrar-se na solidez do asfalto, retilínea ilusão.
Teu andar a galope, rapidez malcriada, confessa essa pressa.
Dalila, depressa, se expressa compressa.
Prolonga um suspiro, um tiro, um espirro.
Um sopro agitado mesclado no vento, teu hálito quente sedento de um fim.
Chega Dalila, chega... Seu destino é o fim. Mas chegar não é findo.
Enfim um jardim, um abalo da alma. A intensidade da voz.
Ah Dalila o seu fim, para mim é um limite.
Dalila, objeto, causa ou motivo, escopo do povo.
Dalila, um intuito, um agouro do tempo.
Dalila despida do tempo, não mais ela mesma.
Se acalme Dalila, o seu fim está longe do fim.

quinta-feira, maio 14, 2009

Estátua de Canis

Do alto da estátua escorre uma gota d’água.
D’água da chuva, d’água da rua.
Uma lágrima, um choro, um lamento de Canis.
Tocou-lhe o dorso e correu para o chão.
Então a hora finalmente chegou.

Cão raivoso de presa afiada,
no regaço desta terra sulcada
pelas duras pegadas das presas brutais.
Rondando, circulando à espera,
deleita-se em caminho tortuoso.
Cava obcecado.

Ah, coiote…
Quem está caçando desta vez?
Suas vítimas nunca são as mesmas.
Seu prazer se projeta em desafio.
Coiote, você está vazio.
Não provoque.
Não adiante o que já está decidido.

Vivendo a sombra de si mesmo,
você está morto.
Posso senti-lo roçar
as pedras imóveis
da estátua de Canis.

O que quer?
O que pode querer?
Não se atreva.
Por acaso esqueceu-se da vida?
Não se atreva a ameaçar.
Não mire estes olhos para o sacrifício.
Cego na ilusão de Canis,
nada vejo além de uma sombra baixa
rastejando ao redor da efígie.

O que pensa estar guardando nessa imagem?
Não há cheiro de carne em seu hálito.
As presas permanecem seladas
na boca fechada.
Seu faro se perde no ar.
Seu tempo está se esgotando,
destinado ao eterno esquecimento
ao lado de Canis.

Deseja o coração
se extinguir
numa ordem natural,
resultado de um breve suspiro de vida?

Latrans, você não entende?
Você não é permanente.
Não se engane, coiote.

Chacal imortal, é isso o que quer?
Não lhe basta a beleza da transitoriedade?
Chacal.
Coiote.
Meu querido lobo das pradarias,
não seja tolo.

Entenda, para que possa caminhar ao lado daquele a quem tanto admira,
que as águas cálidas do pranto de Canis
o ergam à altura de Lupus, a constelação.


terça-feira, maio 05, 2009

Dois reluzentes cristais

Não...
Não foram seus olhos quem viram o que afirmou ter visto o coração
Não...
Não é sempre que se deve confiar no que dizem os olhos
Mas se seus olhos mesmo já fechados insistirem em lhe dizer o que veem
Se implorarem para que uma vez mais se abram as janelas
Fazendo iluminar dois brilhantes cristais
Se só assim puderem afirmar
Então...
Guarde seus dois preciosos cristais em seu interior
Lá onde um universo pulsante se alinha às batidas do coração
E então siga para além de onde podem te levar as janelas abertas
Vá... Voe para além de onde pode a vista enxergar
Deixe ser, não há medidas que possam, então, conter em esferas dois reluzentes cristais
Sem pensar no que dizer
Palavras jamais dirão
Palavras jamais verão
Palavras jamais saberão
Mas deixe que falem pelo que não há palavras
Deixe-as correr
Deslizar por uma superfície contida
Sem que possam aprisionar
Como as janelas que emolduram a infinitude do horizonte
Num pequeno espaço envolvido em recortes
Se são elas quem irão dizer a quem deixá-las falar
Tomar todo aquele que delas beber
Invadir quem delas se alimentar
Serão elas quem trarão todos aqueles que nelas se aventurarem
E nos aproximará como num abraço aqui para dentro de mim
Tendo então, cumprido seu papel
Unindo-nos num só
Palavras não serão mais necessárias
Pois tudo o que disserem já saberemos
Em nosso íntimo revelado

quinta-feira, abril 30, 2009

Cruzamento não paralelo

Confesso, queria tê-la como inimiga
Seguir-te os passos até o inferno
Caçar-te na multidão
Ávida de teu sangue
Prestes a derrubar-te
Queimar em ódio ácido
Na eminência de destruir-te
Fazer de um estúpido desejo
O sentido de nossa existência
Superar-te diante de teus olhos
Dominar-te os pensamentos
Causar-te insônias incuráveis
Úlceras gástricas
Secar-te a boca
Gelar-te da cabeça aos pés
Imputar-te os mais sujos desejos
Envolver-te o pescoço
Privando-te lentamente do ar
Tirarem-te das órbitas os olhos
Rasgar-te a pele em pedaços
Engolir-te completamente
Insuflar-te tremores e choques
Remover-lhe a consciência
Lançar-te longe contra o espelho
Ouvir-te cair despedaçando tua imagem
Fazer-te gritar, urrar, sussurrar
Privar-te dos sentidos
Prensar-te contra a parede
Rir ante teu rosto perplexo
Levar-te a falar, detonar
Sorver-lhe o fôlego
Puni-la e perdoá-la
Venha! Levante-se!
Golpeie-me para longe!
Lute! Lute comigo
Quero lutar com você
Apenas com você
Ver-te atacar
Revidar minhas investidas
Sentir-lhe a fúria
Porque adoro nossa luta
Porque, então, fico no céu
Na mais imunda lama
Existiríamos, nos extinguiríamos
Apenas nós duas
Em meio a nossos insultos
Pobres diabas
Consumindo-nos no calor do embate
Você é minha
Tão minha que preciso lutar
Sugar-te as forças
Para que fique
Eternamente
Comigo
Não há dúvidas de que te odeio
De que te amo
De que preciso
Estar em combate contra você
E sentir o calor de tuas ofensas
A frieza de teu desprezo
Você e eu uma só
Eu e você nada a ver
Você sou eu
E eu você
Do avesso
Reverso do verso
Você fora
Eu dentro
De um maldito reflexo
Meus olhos anseiam trazer-te para perto
Até que possam engoli-te inteira para dentro de si mesma
Desejando tê-la em meus braços
E neles vê-la padecer
Confesso, queria poder acreditar em você
E assim lutar sempre com você
Com você e não contra você
Mas estamos em um cruzamento não paralelo entre ambas

sexta-feira, abril 24, 2009

Sublime Nebulosa III

Seus passos quebram o silêncio de sua presença
Reflete a luz de toda e qualquer estrela
Elevada à última potencia
Propaga a natureza das coisas
Derrama a verdadeira essência do ser
Alimenta todas as terras, todos os céus, todos os mares, todos os fogos
Ergue-se pleno de tudo o que é
Indefinível
Éter, sangue, seiva
Alma, cosmo,
Sol, estrelas
Galáxia, corpo celeste
Partícula, gota d’água
Molécula, átomo
Fagulha, célula, núcleo
Elevado à liberdade desconhecida
Além do olhar angular
Da saliva sedenta
Do desejo cruento
Das vontades linfáticas
Do orgulho corrompido
Da dor e prazer
Do medo perverso
Do tempo e do espaço
Da verdade e da mentira
Do bem e do mal
Da vida e da morte
Do céu e do inferno
De deus e do diabo
Ser sublimado em absoluta unidade
Desmembrado em infinita multiplicidade
Seus pés que outrora caminhavam
Mansos, tranquilos
Agora correm, deslizam
Não há limites
Não há barreiras
Irradiam transcendente grandeza
Voam além deles mesmos
E vão para todo lugar
Estão onde o pensamento estiver
Eterno e transitório
Absoluto de todas as coisas
Ser de suprema sabedoria
Ouça o que ele diz
Pois o que ele diz as palavras não traduzirão
Deixemos que seja
Pois tudo está repleto
De sublime nebulosa



quinta-feira, abril 23, 2009

Dédalo purgatório II

Invólucros vazios
Desprovidos das mais ávidas paixões,
Dos ímpetos de empenho,
Do interesse natural
Pela sedução das maravilhas.

Existe sede,
Existe fome
Em mergulhar profundamente,
Procurando desviar,
Ponderando se entregar
Ao sofrimento prolongado,
Que se estende pelo corpo,
Colérico e cansado.

Uma vontade corrompida,
Deveras falseada,
Forjada em satisfação,
Pagamento, haja vista,
Mentiras creditadas,
Falhas parciais,
Modelos imprecisos.

Consubstancia
Fatos e impressões,
Nada além
Do que está além
Do dizível e visível,
Apenas crível e viável,
Em eterna insatisfação.

Terra ávida e incessante,
Donde as buscas não têm fim,
Numa esteira sempre constante.

Uns se erguendo,
Outros caindo.
Em rios caudalosos,
Muitos corpos se entregam
Às correntes traiçoeiras.

Haverão de pagar,
Todos, pelo desejo, pelo ensejo,
Controlando seus humores,
Refazendo seus caminhos,
Desfazendo seus enganos,
Expiando suas culpas.

Neste Dédalo Purgatório,
Aos poucos se achegando,
Sem que haja dúvidas.

Tudo a seu tempo,
Um tempo que seja seu,
Desconhecido do relógio
Ao qual pobres diabos se apegam.

Venha...
Se achegue,
Num tempo somente seu.
Se entregue,
Mas que seja primeiro a si mesmo,
Amante a unir-se num só.

Hás de compreender
Que estás além da fome que te atormenta,
Da sede que te mortifica.

Hás de compreender
Que não há tempo algum
Em que se possa contar nem conter
O que somos.

E então, hás de chegar
Antes que te possas notar.

quarta-feira, abril 22, 2009

Magma infernal I

Neste magma infernal
Poderíamos cozinhar
De uma só vez derreter
Agonizando em meio a lavas
Mentiras e ilusões borbulhantes
Mas vamos perecer em fogo brando
Morrer em banho Maria
Espinheiras dançam no vendaval
Roçam-nos os corpos
Tiram-nos o sangue
Que percorre em linhas tortas até o chão
Terras tórridas
Amaldiçoadas
De rosáceas venenosas
E vapores sulfurosos
Carnicões fazem caminho
Via reino virulento
De serpentes peçonhentas
E insetos agressivos
Túrgidos pulmões
Aspiram asfixiados
Vamos todos arrastando
Como vermes na carniça
Sucumbindo neste inferno
De nada adianta se esquivar
Vêm chegando
Vêm chegando
Os demônios do relógio
Apressados como nunca
Mais perversos que suas vítimas


terça-feira, abril 14, 2009

Na chuva

Nesta noite maravilhosa e miserável
Em que andam a escorrer pelas calças água da rua
Sapatos sovados de lama
Pisam e murmuram coaxos de sapo
Em penúria embriagados de chuva
Ó meu deus, porque tanta carreira?
Já não sabe tragar céu aberto?
Para que tanta espera
Pendurado à marquise estreita?
Vai a solavancos se esgueirando entre as esquinas
Pobre diabo! Só chão para te aquecer
Terra chã para se esquecer
Só vai ele, depauperado
A levar chuva no lombo
Escoando a miséria humana
Ó e no passado
Num tempo em que não havia a estreiteza do olhar
O selvagem na chuva valsava
Civilizou-se no medo e bom senso
Precipitando-se acima das poças
Resvalando em sofrimento
Atalhando a morte
Um tempo que não vira nada
Um tempo que só influi
Deságua abaixo do céu

quinta-feira, abril 09, 2009

Nevasca

O arrasto das rodas me aterroriza
Flocos de neve debatem-se
Uivam lá fora
Ah, por Deus, não posso parar
A paisagem irá me engolir
De um branco angustiante
Maldita ilusão em cartões postais
Lembro-me dos enfeites de natal
De como são reconfortantes
Do calor que transmitem
Em datas especiais
Salpicados em branco plástico
Mantenho a perspectiva
Desde o começo procurei um suporte
Ancorando-me em memórias
Mas este porto é tão remoto
Como pesa o ar aqui dentro
Um carro dança no gelo
As correntes tilintam
A cada avanço na estrada
Um recuo do sol
Crepúsculo perverso
Vem a galope
Arauto funesto
Gelando-me o sangue
Exaurindo-me as força
Um suspiro escorrega
Da garganta profunda

quinta-feira, abril 02, 2009

Mundo

Mundo
Toque
Toque para mim sua canção
Mostre
Mostre para mim a sua luz
Diga-me
Diga-me tudo o que você tem a dizer
Não se esconda de mim
Dance
Dance sua música para mim
Leve-me
Leve-me embora para todo lugar
Abrace-me
Abrace-me forte
Fale comigo em sua língua
Em todas as línguas que você aprendeu
Em todas as línguas que você ensinou
Em todas as línguas que você experimentou
Mostre-se para mim
Mostre-me seu verdadeiro potencial
Mundo, você é meu mestre
Você é meu pai
Minha mãe
Meu irmão
Meu amante
Mundo mostre-me tudo o que você é
Não se esconda
Seja tudo o que você realmente é
Então, depois escolha o que é melhor
Ser o que você é
Ou ser outra coisa
O que é melhor?
Viver morrendo
Ou simplesmente viver
Mundo
Diga-me
O que você pensa?
O que há de errado com você?
O que há de errado conosco?
Com você e comigo
Com você e todos nós
O que há de errado?
Como você se sente a respeito de tudo?
Mundo mostre-nos o mundo como ele realmente é

quinta-feira, março 26, 2009

Tentando buscar

Estou tentando continuar
Continuar buscando
Mas quando acordo
Quando me levanto
Quando me deparo comigo
Procuro encontrar qual busca seria a minha
Uma busca, um intuito, um caminho certeiro
Uma busca que não está aqui dentro de mim
Ela há de estar lá fora, precisa estar
Pois aqui dentro não pode estar
Aqui dentro a busca não se encaixa
Não se encaixa às buscas disponíveis do mundo lá fora
Lá fora não tem espaço para o que existe aqui dentro
Ou será que aqui dentro não há espaço para o que ofertam lá fora?
Para que eu possa me ajustar às opções oferecidas lá fora
Às propagandas que fazem, de que a vida acontece lá fora
Minha vida está acontecendo aqui dentro
Lá fora minimizo esta vida, sufoco esta vida
Para que a vida que lá fora me ofertam se encaixe aqui dentro
Lá fora posso trocar de vida, se não gostar desta ou daquela
Experimentar tantas vidas quanto quiser
Até encontrar aquela que me faça aceitar as coisas como elas são
As coisas como são é a vida que nos vendem
Os chicletes têm o que gosto que tem e se não lhe agrada
Busque os da concorrência
As ofertas nos parecem infinitas
Mas são um limite
Barreiras
Por trás das barreiras estamos todos à espera
Em busca do que nos oferecem
Mas e quanto às coisas que não podem nos oferecer?
Quanto àquelas que não têm como nos oferecer?
Estas vamos deixando de lado, vamos esquecendo
Deixando-as morrer pelo caminho que nos foi ofertado
Pela ordem que rege lá fora
É preciso se adaptar
Se moldar
Mas não é isso o que somos
Um pedaço de barro que se possa moldar
O que somos talvez não represente um modelo
O que somos são todas as coisas
Porque o que somos está vivo e em movimento
É fluido e não estático
O que somos simplesmente é
Independente das inúmeras identidades que possamos adotar
Trocar, buscar, representar
Não há respeito pelo que somos
Pois o que somos está além do respeito
As buscas que precisamos buscar
Já foram encontradas
Do contrário não estariam expostas em uma vitrine
Existem aqueles que não querem as buscas
Mas alimento
Alimento para que seus corpos possam sobreviver
Aqueles que não se ajustam às buscas
Que estão à margem dos sonhos
Das incríveis realizações
À beira da morte
Existem aqueles que são...
E aqueles que se vão...

sábado, março 21, 2009

Fel da vida

Lamentável é não enxergar para além dessas paredes
Acredite. O horizonte fica preso aqui na garganta
E a fome deixa de existir
Assim como o contentamento se estende em frustração
Pagando o espaço físico ocupado
Preso a uma terra de promessas
Num labirinto insensato
Numa redoma caótica
Em meio a toda essa retórica furiosa
Endurecida em palavras lapidadas
Derramando verbo absoluto
Ardendo como sal no lume
Revertendo antinomias
Tombando abaixo do consenso
Patenteando uma pobreza chapada
Gravada e enfeitada
Em propagandas prostitutas
Hipocrisia das mentalidades
Cristalizando o fel da vida

segunda-feira, março 16, 2009

O ladrão que roubava levitando

Quem poderia imaginar que você, um cara considerado atraente, inteligente e todas essas bobagens que costumam dizer numa mesa de bar qualquer ou num almoço em família naqueles típicos domingos quentes e enfadonhos, em que todos se reúnem famintos e logo que se satisfazem dão uma desculpa qualquer para voltar para casa o mais rápido possível, se tornasse o que se tornou.

Ah, você foi uma criança tão viva; prendia insetos em vidros e garrafas e se divertia com o desespero deles. Jogou bola, tomou chuva e caiu de cama sem nunca se arrepender. Irradiava liberdade, tão impulsivo, despreocupado. Era mesmo um prodígio, como todos os garotos de sua idade acreditavam ser.

E agora que já está crescido, como acha que será? Agora é aquele momento em que todos esperam por suas decisões, aspiram pelos grandes feitos, querem motivos pelos quais se orgulhar daquele garoto que hoje já não existe mais. Você sempre se pergunta o que querem de você, sem ao menos pensar no que você quer. Deixe que pensem isso ou aquilo. Veja só no que se tornou. Se ao menos pudesse voltar atrás, se disciplinar, se conformar, se empenhar naquilo em que qualquer um teria se empenhado. Mas não. Você simplesmente não aceita os fatos.

É por isso que sente sempre aquele enjoo chato. Não é nada que você tenha comido; são só alguns minutos indigestos e culpados. Você quer mudar, quer ser melhor. Mas melhor em quê? A pergunta permanece no ar até o enjoo passar.

Você quer dar uma volta, deixar os pensamentos livres, mas sabe que, se o fizer, não irá resistir e fará tudo de novo e de novo, até que um dia irão descobrir. Procura uma desculpa para ficar, cava um desânimo. Precisa tomar um banho e relaxar. Não adianta se preocupar.

Parece ridículo falar sozinho consigo mesmo, como se fosse uma terceira pessoa observando suas fraquezas de perto e alertando sobre os perigos. Mas é isso o que faço. Sinto-me melhor sendo analisado por alguém de fora, mesmo esse alguém sendo eu, afinal não há espaço para mais ninguém nesse papel.

Quero alimentar a ilusão de que um grande observatório conspira contra mim e está prestes a me desmascarar. Assim fica mais fácil lembrar dos cuidados que devo ter em relação aos meus atos. Sinto-me culpado às vezes, mas isso não me envergonha. Tenho prazer no que faço. Creio que tenho direito a determinadas satisfações, sem excessos, claro.

Sempre que posso, me aconselho a fazer a coisa certa, mas a coisa certa nem sempre é vista com bons olhos. Minha consciência finalmente me convenceu de que tudo depende do ponto de vista. Nada é universal. Não quero nem pensar nas consequências de meus pensamentos, muito menos nas dos meus atos.

Está decidido: preciso de um banho, é o melhor que posso fazer no momento. Banho frio me deixa alerta, então escolho esquentar o corpo e tentar relaxar. Assim que terminar, farei um café. Diabos, o café também me deixa alerta. Preciso mesmo é de um chá. Quem sabe um leite quente. Mas odeio leite. Então fico com o chá.

Você já se sente melhor, renovado, pelo menos está livre do suor. Pare de limpar o rosto. Não vê que já está limpo? Parece uma obsessão, um tique.

Olhe-se no espelho. Até que é bonito, não é mesmo? Não penteie os cabelos como se fosse sair. Passe as mãos na cabeça e os coloque para trás. Isso basta. Nem se dê ao trabalho de se vestir; fique assim como está. Faça o chá e vá se deitar. Não. Não e não. Acho que vou deixar de lado a ideia do chá. Preciso de um cigarro.

Não seja idiota, você não fuma. Hoje eu fumo. Fumo o dia que eu quiser e paro quando quiser.

Você não tem cigarros em casa e é por isso que quer fumar. Porque sabe que precisará sair para buscar um maço. Eu te conheço. Sei aonde quer chegar. Por que não diz logo que vai sair para fazer aquilo de novo? Por que não me deixa em paz? Você não quer paz. Quer que eu continue a te acusar, sei disso. Deve estar louco. Pense o que quiser. Não ligo a mínima. Você precisa mais de mim do que eu de você.

Não seja estúpido. Quem você acha que sou? Alguém de verdade tentando te convencer a fazer a coisa certa? Estou começando a me preocupar com sua sanidade. Não venha com essa conversa. Sei muito bem que você sou eu forjando alguém externo. Mas agora me deixe agir. Fique à vontade. Você nunca precisou do meu consentimento para nada mesmo. Quer discutir apenas para travar uma luta contra si mesmo.

Preciso achar um lugar calmo, numa rua morta. Não será nada demais. Vou esperar no telhado até que nenhum ruído mais se ouça e então levo as coisas que me interessam e tudo estará terminado. Você é mesmo um idiota. As coisas que te interessam não interessam a mais ninguém. Isso tudo não passa de um capricho estúpido, uma desculpa para que você possa se deleitar com seus poderes gravitacionais. Sei que posso fazer. Não há prazer maior do que sentir que sou especial, quase um herói, talvez invencível. Não seja tolo. Quer que o descubram? Esse é um segredo entre nós. Você prometeu que o manteria entre nós, lembra? Não posso arriscar pôr tudo a perder por você. Não me faça voltar atrás. Você é uma exceção. Não precisa me lembrar. Já sei. Só me deixe tentar de novo. Quero sentir mais uma vez como é levitar e controlar meus movimentos com exatidão. Não precisa disso. Pode tentar de outra maneira. Claro que preciso, do contrário não posso controlar meus movimentos. Preciso estar alerta, numa situação delicada.

Sempre me arrependo do que fiz. Você não merece essa dádiva. Devia ter mantido você longe de mim, longe de minhas capacidades. Agora é você que está sendo idiota, porque afinal você sou eu, não é mesmo? Infelizmente sou, aquela fatia que quase ninguém conhece em si mesmo, mas justo você, um egoísta, por sorte me descobriu. Fique quieto. Chegou a hora. Todos estão dormindo. Vou entrar e levar o que puder comigo.

Quem vê assim até pensa que você é um ladrão de mão cheia, mas não passa de um sacana que leva apenas papéis com anotações alheias. Diários. Até cadernos de receitas você já roubou. Francamente, você é ridículo. Gosta mesmo de observar a mediocridade na vida das pessoas ou isso é apenas um hobby?

Acho que é tudo isso, somado à emoção de poder levitar e sentir que posso fazer qualquer coisa com esse poder e, diante disso, optar por simplesmente me apoderar da mediocridade na vida das pessoas. Sou mesmo demais. Nada é mais improvável do que minha conduta que soma superioridade e originalidade.

Por favor. Você já vive rotineiramente a mediocridade de sua própria vida. Por que roubar a dos outros? Não faz sentido. Roubo apenas aquilo de que necessito. Então quer dizer que você precisa da mediocridade dos outros, é isso? Ora, nada é mais sólido do que isso. Nenhum bem material é mais palpável que isso. Preciso disso mais do que nunca. Preciso da solidez, da estabilidade, da certeza, do provável que existe nas coisas que roubo. Preciso disso como de um remédio. Eu o tomo e espero que faça efeito na minha vida. Espero esperar tudo o que todos esperam.

Você é mesmo louco. Está remando contra a maré. Todos, no íntimo, desejam desvencilhar-se de uma existência ordinária, enquanto você quer justamente o contrário. O que todos desejam não é exatamente o que esperam, e também não é exatamente o que precisam. O que desejam é, ao fim das contas, ter uma vida medíocre, estável, confortável, previsível, óbvia, calculada para um futuro garantido. E é exatamente isso o que quero sentir.

Mas por que quer sentir isso? Porque já estou cansado de não sentir nada, de não ser nada, de não fazer nada do que para essas pessoas faça sentido. Quero estar entre elas. Quero me sentir parte. Você não entende, nem entenderia. Mas você já faz parte disso. Você está aqui, não está? É isso o que quer. Veja, não é preciso lutar. Basta deixar correr a corrente e se deixar levar. Você acha mesmo que é tão diferente assim das outras pessoas?

Como assim? Do que está falando? Ora. Será que não percebe? Eu poderia te dar qualquer coisa e você não faria nada além do que qualquer um faria. Você diz ser quase um herói, um gênio, por almejar apenas a mediocridade alheia com o poder que tem, mas na verdade você não é nada além de um escravo, como qualquer outro. Do que está falando, droga? Estou dizendo que o que você faz não é nada genial, não é original. O fato de não buscar poder ou fama não faz de você especial. Você acha que qualquer um faria o contrário, mas isso não é verdade. Muitos fariam o que você faz, e o que você quer, outros também querem. Acredite: você não é o único a não sentir nada, a refletir no íntimo que deveria ter feito algo mais, ter dado sentido à sua vida medíocre ou ao mundo, sabendo que, no fundo, o que quer é o que todos querem. Uma vida como todos querem e sonham ter: uma casa, dinheiro na conta para pagar dívidas, pagar sonhos, estudos, satisfações pessoais, pagar sua participação na sociedade. Estamos sempre em dívida, e dinheiro nenhum no mundo poderá pagar por seus anseios, pois estes não têm preço.

E agora, o que acha que irá fazer? Aposto que ainda não sabe. Talvez nunca saiba. Mas ainda assim irá fazer aquilo que todos nós sabemos fazer tão bem: comprar, vender e contar o tempo que temos. Negociar. Sabendo disso, você se revolta. Não quer deixar acontecer. Mas as coisas acontecem como numa corrente. E eu te pergunto: que ordem é essa que nos faz rodar todos os dias? Não entende que nada disso é preciso para se sentir parte? Já pensou realmente no que seria se sentir parte? Claro que sim, e é o que quero. Não é verdade. As pessoas, para se sentirem parte de um grupo, de um meio, de uma sociedade, precisam comprar seu lugar nela. Mas as coisas não precisam ser assim para nos sentirmos parte. O que fazemos é exatamente o contrário: não nos inserimos, não nos unimos. Estamos nos separando, nos jogando uns contra os outros, nos explorando, nos escravizando, nos limitando a uma realidade pobre, bruta, abusiva. Nossos potenciais são desconhecidos, estão limitados por essa realidade que nos sufoca e aprisiona. Poderíamos alçar voo para além dessa mediocridade. Poderíamos trabalhar a favor da vida, não apenas das nossas próprias vidas, mas de toda e qualquer vida. Em vez de nos escravizarmos em troca de dinheiro, um pedaço de papel que se alimenta do nosso suor e das nossas energias, que draga nossas percepções, nos cega, nos impõe limites, nos controla como títeres.

Poderíamos ser muito além do que somos. Poderíamos ser todas as coisas. E, na verdade, somos todas as coisas, mas acreditamos que somos uma só, desconectada de todas as outras. Por isso nos escravizamos para nos sentirmos parte dessa sociedade escravista e elitista. Quanto de nós foi explorado em vão ao longo dos anos, explorado em troca de moeda corrente. Poderíamos não explorar, mas desvendar. Exaltar o nosso melhor. Dar valor a algo muito além de um papel. Devolver o real valor da vida, da vida como um todo e não como unidade. Prezar pelo amor e não pela raiva, pelo medo, pelo ódio, pela indiferença, pela competição, pelo ganho. Prezar pela vida em sua totalidade. Entende o que digo? Fazemos parte de algo muito maior do que esta sociedade. Fazemos parte do universo. Somos um todo. Se pudéssemos nos sentir assim e, com isso, nos empenhássemos pelo todo... O que estamos fazendo? Estamos nos matando, nos explorando, virando a cara para aqueles que não têm nem sequer o que comer. Poderíamos todos ter uma vida digna. Não somente eu, meu amigo, minha família. Mas todo ser humano na Terra.

Entende o que digo? Isso sim é fazer parte. O resto é mera segregação.

sábado, março 07, 2009

Aida

Aida acorde
Venha até aqui
estou aqui fora, no jardim
Estou à sua espera
Venha...
Ainda é cedo Aida
Sinta...
Sente a brisa marítima,
soprando ao pé do ouvido?
É para você
um sopro harmônico
do mar para você
De longe toca uma canção no rádio
daquelas que te faz vibrar
No íntimo você quer dançar
Dance comigo Aida
dance comigo...
Sua dança traz o mar para perto
ele avança manso e se arrasta a seus pés
Aida é pura música
Gira no ar como um anjo
Sorria
o sol nasceu para você
A sinfonia são seus passos
seu rosto iluminado
Você nasceu para brilhar
É tão fácil se encantar
por Aida
Aonde quer que você vá
a luz irá te buscar
As estrelas irão te procurar
o mar irá te abraçar
Com a força da maré
num campo gravitacional
Ideal para que erga-se com as ondas
Aida orbita no universo
acima das constelações
Para além de galáxias distantes
seu corpo é dança
sua alma é música
É a harmonia do cosmos
É mais do que posso dizer